Por muito tempo, “peso” e “mente” foram tratados como se fossem departamentos diferentes dentro do mesmo paciente. Só que, na prática clínica, vejo todo dia: fome, ansiedade, impulsividade, sono, estresse, inflamação, resistência à insulina e humor no mesmo ecossistema. É aí que os agonistas de GLP-1 (como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e, em alguns casos, terapias duais como tirzepatida) entram no radar — não só pelo emagrecimento e controle glicêmico, mas pelo impacto potencial em padrões de comportamento alimentar e em dimensões que encostam na psiquiatria.
O que são agonistas de GLP-1 e por que eles mudam o jogo?
O GLP-1 é um hormônio intestinal que, entre outras funções, participa da regulação da saciedade e do metabolismo da glicose. Os agonistas de GLP-1 “imitam” esse sinal do corpo e trabalham em três frentes estratégicas:
- Sinalização no sistema nervoso central: atuam em circuitos cerebrais ligados à fome e saciedade (como áreas hipotalâmicas) e também dialogam com redes de motivação e recompensa.
- Efeito gastrointestinal: retardam o esvaziamento gástrico, ajudando a prolongar a sensação de plenitude após a refeição.
- Metabolismo da glicose: melhoram a secreção de insulina dependente da glicose e reduzem glucagon, o que pode estabilizar picos e vales glicêmicos — e isso, na vida real, influencia muito a relação com comida.
Compulsão alimentar: menos episódios, menos urgência, mais previsibilidade
Na compulsão alimentar, não é só “falta de força de vontade”. Frequentemente existe uma combinação de vulnerabilidade emocional, reforço dopaminérgico, hábitos condicionados e um corpo biologicamente “programado” para buscar alívio rápido. Estudos vêm sugerindo que agonistas de GLP-1 podem reduzir episódios de compulsão em parte dos pacientes, especialmente quando a compulsão está muito acoplada à fome intensa, desorganização do apetite e busca por alimentos hiper palatáveis.
O ponto-chave aqui é governança do apetite: quando a saciedade fica mais consistente, diminui a probabilidade de chegar no fim do dia em modo “pane”, com tomada de decisão impulsiva e autocontrole no limite. Além disso, muitos pacientes relatam mudança espontânea de preferência, menos interesse por ultraprocessados e por porções grandes, o que pode facilitar uma reeducação alimentar mais sustentável.
Impulsividade alimentar e circuito de recompensa: o cérebro também está na conversa
Impulsividade alimentar é aquela sensação de “foi mais forte que eu”. E, sim, isso tem neurobiologia. Parte do benefício observado com GLP-1 pode vir da modulação de circuitos de recompensa, reduzindo a urgência por gratificação imediata. Na prática, isso pode aparecer como:
- menos “beliscos automáticos”;
- menor busca por doces e snacks como anestesia emocional;
- mais espaço mental para escolher, em vez de apenas reagir.
Para a psiquiatria, isso é interessante porque impulsividade e compulsão raramente são exclusivas do prato: elas podem coexistir com ansiedade, depressão, TDAH, transtornos por uso de substâncias e padrões de regulação emocional fragilizados.
Metabolismo e saúde mental: uma via de mão dupla (e uma oportunidade clínica)
A relação entre obesidade/diabetes tipo 2 e transtornos mentais é bem documentada: inflamação crônica, alterações do eixo estresse-cortisol, sono ruim, resistência à insulina e estigma social podem piorar sintomas psíquicos. Por outro lado, alguns psicofármacos (especialmente certos antipsicóticos e estabilizadores) impactam peso e metabolismo, criando um ciclo difícil de quebrar.
Nesse contexto, agonistas de GLP-1 podem funcionar como uma alavanca: melhorando parâmetros metabólicos, alguns pacientes apresentam ganho indireto em energia, autoestima, sono e disposição para psicoterapia e mudança de hábitos. E ainda há hipóteses em estudo envolvendo redução de inflamação sistêmica, melhora de sensibilidade à insulina e possíveis efeitos em neurotransmissores ligados a humor e motivação.
Apesar das evidências promissoras, há considerações importantes para adotar os agonistas de GLP-1 nos tratamentos psiquiátricos:
– Efeitos Colaterais Comuns: Náuseas, vômitos, constipação intestinal e diarreia são efeitos colaterais associados a estes agentes. Caso surjam, é importante avisar o seu médico para alívio desses sintomas e garantir boa tolerância e adesão aos tratamentos.
– Interações Medicamentosas: É vital avaliar possíveis interações para evitar efeitos colaterais não desejados.
– Custos e Acessibilidade: O valor dos agonistas de GLP-1 pode representar um desafio financeiro para os pacientes. Aspectos de acesso e cobertura por planos de saúde precisam ser considerados.
As pesquisas futuras devem se concentrar em ensaios clínicos randomizados de longa duração para avaliar a eficácia e segurança dos agonistas de GLP-1 em diferentes populações psiquiátricas. Além disso, explorar os mecanismos neurobiológicos subjacentes pode trazer importantes insights para o desenvolvimento de tratamentos mais direcionados.
Na psiquiatria, vale um olhar extra para:
- comorbidades e polifarmácia (interações, tolerabilidade, adesão);
- histórico de transtornos alimentares (principalmente quando há restrição importante, purgação ou risco nutricional);
- expectativas irreais (quando o paciente deposita no remédio a solução de sofrimento emocional amplo).
O futuro do cuidado passa por entender que corpo e mente são um único produto final: o paciente funcionando no dia a dia. Agonistas de GLP-1 abrem uma janela interessante para reduzir compulsão e impulsividade alimentar e, ao mesmo tempo, apoiar a saúde metabólica que sustenta o equilíbrio psíquico. Mas o melhor resultado aparece quando essa farmacoterapia entra num plano completo: sono, rotina, psicoterapia, nutrição, atividade física, manejo de estresse e acompanhamento médico próximo.
Aviso importante: este texto é informativo e não substitui avaliação individual. Indicação, dose e acompanhamento devem ser definidos por profissional habilitado.


